A RUA
Mergulhei na rua como mergulhasse em mim mesmo e a enxergava conforme
o meu humor.
Meus pensamentos definiam a realidade. Tudo era uma questão de
consciência. Às vezes, ficava pensando como as discussões eram
inúteis. Não nos levava a lugar algum.
Quem está com a razão?
Basta estar vivo para alguém está certo. Ou seja, a única realidade
era a mente do homem. É ela que faz as coisas existirem.
Esta diversidade de pensamento, paradoxalmente, unifica. E esta
unidade é a mente.
Um vento frio bateu em meu rosto e me refrescou os pensamentos. Para
onde estava indo na vida? Ora, a vida não tem espaço. A vida não tem
uma direção. O viver já é algo absoluto, não requer outra condição.
Continuei caminhando. Sem rumo? Estava cami-nhando apenas pelo simples
prazer de caminhar. A vida moderna eliminou este prazer das pessoas.
Não procurava um fim, uma saída e um destino para a minha caminhada.
Apenas caminhava. E, isto me colocava no absoluto. Na rua eu não
estava, eu era.
Mas, inevitavelmente, a rua me forçava a uma re-flexão: o que há do
outro lado? Da rua? Da vida?
Ora, o absoluto não tem lados. É absoluto. Não e-xiste o outro lado da
vida. Só pode existir vida. Em que plano? Material? Mental? Visível?
Invisível?
Todavia, para onde aquela rua estava me conduzindo? Como a vida, a rua
também não tem fim. Tudo é uma questão de ângulo, de visão. Se comecei
por tal lado, o fim é aquele e se comecei por tal lado, o fim é aquele
outro.
Mas, enfim, a rua apenas nos conduz, como a vida e, às vezes, cruzamos
com alguém. Paramos para trocar idéias, saciar desejos e prosseguimos.
Às vezes, ocorria de me perder. Já não sabia se a rua existia ou se,
eu mesmo, era a própria rua.
Sei que, por mim, passaram muitos rostos, desejos, dúvidas, paisagens,
casas, bichos e emoções.
Sendo assim, não tenho fim e também, faço você agora, viajar em mim.
Hideraldo Montenegro
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